Avançar para o conteúdo principal

King Lear

Li este livro com o objectivo de ir ver a encenação no CCB, há dias, emprestado pelo meu amor para esse propósito.


O Rei Lear está velho, e pretende dividir o seu reino pelas suas três filhas. O critério? A resposta a um simples e surreal "o quanto gostam de mim?". Trocar terra por declarações de amor leva a um desencadear de eventos violentos e absurdos, naquela que é uma das tragédias mais conhecidas do autor.

A ideia de dividir o território consoante o quanto as suas filhas declarem gostar dele torna Lear, de certa forma, repulsivo: egoísta, egocêntrico e, como veremos, irritável e precipitado. Goneril, a filha mais velha, lança elogios vãos; Regan segue o mesmo caminho. Cordelia vai pensando em como não sabe o que dizer. Após belas palavras, o pai deliciado, são as filhas mais velhas presenteadas com vastos territórios para governarem com os seus maridos. Sobra Cordelia. Cordelia, a filha mais nova, cuja sinceridade transparente provoca - tal como a lisonja vazia das irmãs - a reacção indevida no pai.

Lear, impulsivo e mau juiz de carácter, leva a falta de palavras da filha mais nova, Cordelia, como sendo falta de amor; despoja-a de terras, de bens, de dotes, e pede aos seus pretendentes, o Duque da Borgonha e o Rei de França, que decidam se ainda a querem. O Rei de França vê Cordelia como um dote em si mesma, e fá-la Rainha, perante a desistência do seu rival. Lear divide a parcela reservada para a filha deserdada entre as suas duas outras filhas. Ele próprio, sem se aperceber, despojado de terra e de poder, declara que passará um mês com Goneril e o seu marido, Duque de Albany, e o mês seguinte com Regan e o Duque de Cornwall, levando o seu séquito consigo.

Cor. Unhappy that I am, I cannot heave
My heart into my mouth. I love your Majesty
According to my bond; no more nor less.
Lear. How, how, Cordelia? Mend your speech a little,
Lest it may mar your fortunes.
Cor. Good my lord,
You have begot me, bred me, lov'd me; I
Return those duties back as are right fit,
Obey you, love you, and most honour you.
Why have my sisters husbands, if they say
They love you all? Haply, when I shall wed,
That lord whose hand must take my plight shall carry
Half my love with him, half my care and duty.
Sure I shall never marry like my sisters,
To love my father all.
Lear. But goes thy heart with this?
Cor. Ay, good my lord,
Lear. So young, and so untender?
Cor. So young, my lord, and true.


Lear está portanto cheio de defeitos - e é uma personagem difícil de amar ou respeitar. É inconsequente, ao se privar do seu reino antes do tempo, não demonstra grande alcance de visão ou capacidade de ver para além das palavras. Porém, Lear pede este amor e respeito do seu público, pois passa, sim, de um velho tonto; é carismático, apaixonado, louco ao ponto da histeria, mas o seu orgulho e dignidade persuadem o leitor (ou espectador, caso se veja a peça) a tomar o seu partido. É vulnerável, especialmente quando, pouco depois, descobre que o amor que tem pelas suas filhas não é retribuído, que elas o vêem como um encargo e alguém que lhes tenta tirar a autoridade que acabam de ganhar.

Presentes na divisão de terras estavam Kent e Gloucester, nobres conselheiros do rei. Kent toma o partido de Cordelia, tentando fazer Lear ver o seu erro, e acaba banido. Gloucester tem dois filhos: Edgar, seu filho legítimo, e o pouco mais novo Edmund, seu filho bastardo, insatisfeito com a sua posição social, que planeia convencer o pai de que Edgar o quer matar para ficar com o título. Tramando o irmão, procura alcançar o lugar de herdeiro legítimo do seu pai, que odeia. Tudo é calculado - um pouco como os comportamentos de Iago, em Othello.

Portanto: temos um aparente déspota narcisista, que dá a sua herança às suas filhas malvadas. Cordelia parece que é tonta como o pai, ao não se ter imposto contra as irmãs e aceitado simplesmente o seu destino de deserção (se bem que, rainha de França, não teria levado a melhor?). Na casa dos Gloucester, o filho bastardo está a conspirar contra o meio irmão, Edgar, e o seu pai.

Vou deixar aqui desde já: o meu grande problema com esta peça é o Edmund. Edmund torna-se numa figura central no enredo, e de certa forma parece que duas histórias paralelas, mas não muito conexas, se juntam em torno dele. E é isto que, para mim, tornou esta peça inferior a outras que li de Shakespeare - embora seja considerada a melhor tragédia do autor.

Kent decide disfarçar-se de modo a não ser reconhecido, para que possa continuar a servir o rei. Rapidamente, Lear descobre que os únicos que lhe são leais são Kent e o seu Bobo. O primeiro conflito é com Goneril, cujo servo, Oswald, desrespeita Lear, para fúria de Kent. Goneril diminui o séquito do pai, e fá-lo compreender que não é bem vindo. Lear fica furioso com a filha, e decide que Regan o receberá melhor; Goneril avisa a irmã, que, juntamente com o marido, Cornwall, parte para a casa de Gloucester, por não quererem receber o rei.

Edmund finge ter sido atacado por Edgar. Gloucester está cada vez mais convencido da traição, e Edgar foge.

Regan demonstra ser ainda pior que Goneril; Lear está desesperado e vai dormir ao relento, seguido pelos seus sempre fiéis Kent e Bobo. Entretanto, Gloucester recebe uma carta segundo a qual França irá invadir, e informa Edmund, achando poder confiar nele. Mas quem senão um traidor teria tais notícias? Regan e o seu marido, Cornwall, decidem agir.

Dois pais julgam erradamente os seus filhos, agem impulsivamente e pagam caro pelos seus erros e orgulho mal direccionado - mas ambos têm quem os guie na tempestade.

O matter and impertinency mixed! Reason in madness!

Edmund, é claro, não sente nada quanto à acção que Cornwall e Regan tomam contra o seu pai: na verdade, não tem sentimentos por ninguém, o que lhe permite manipular todos à sua volta. Gloucester e Edgar, mas também Goneril e Regan, achavam que Edmund não os iria trair, por julgarem ter algum tipo de ligação emocional com ele.

As personagens pagam caro pelos seus defeitos e fraquezas: Gloucester é enganado pelo seu filho desleal e castigado por ser bom para com Lear - acaba por se reconciliar com Edgar, mas é-lhe negada a felicidade; Lear, um rei nobre e altivo, enlouquece antes de perceber tudo o que fizera de errado em nome do seu orgulho. 

Cordelia é aquela cuja lealdade e amor custam mais caro. A justiça não é cega, a justiça, nesta peça, é aleatória.

Lear. Howl, howl, howl, howl! O, you are men of stone.
Had I your tongues and eyes, I'ld use them so
That heaven's vault should crack. She's gone for ever!

Lear perde tudo, e morre. Edgar, Kent e Albany terão de seguir em frente e mudar o rumo das coisas o melhor que conseguirem. Shakespeare consegue juntar todos os pontos pelo final da peça, mas este final não é feliz.

As flies to wanton boys are we to th' gods.
They kill us for their sport.

Os temas explorados na peça são universais: relações de poder, abuso de poder; relações familiares, pais e filhos, a capacidade humana para a crueldade, as consequências dos actos. A forma como a natureza replica os sentimentos de Lear. Mas também há bondade em toda a peça, no meio de toda a perda, mesmo com o final menos feliz: há o amor simples de Cordelia pelo seu pai, a lealdade de Kent e de Gloucester, a tentativa de Edgar de curar o seu pai - mas mesmo a devoção de Oswald por Goneril, e o servo que se vira contra Cornwall, que havia servido toda a sua vida, num momento central da peça.

Recomendo ainda, a quem tiver oportunidade, assistir a esta peça encenada. O ciclo no CCB já terminou (foram apenas dois dias), mas haverá outras encenações de qualidade - talvez esta mesma se repita. Dá uma compreensão muito maior das dinâmicas da peça - afinal, peças não foram exactamente escritas para serem lidas, mas para serem vistas.

4/5

Podem comprar uma outra edição em inglês aqui, ou em português aqui.

Maratona Literária de Verão 2017: 1892 pág.


Comentários

  1. "afinal, peças não foram exactamente escritas para serem lidas, mas para serem vistas" - exacto, e foi das melhores que já vi :p e como sabes também o King Lear é para mim a obra que menos gosto do Shakespeare, mas em peça, também por já se ter lido a obra, compreende-se melhor toda a dinâmica digamos assim

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. e com bons actores ganha-se sempre ainda mais a ver a peça :D as emoções a serem transmitidas, o diálogo a ser vivido, tudo isso :p temos de ler mais Shakespeare :$

      Eliminar
    2. Sim, embora já seja provavelmente o autor que li mais :p

      Eliminar
    3. Isso fez-me ir ver e o autor que li mais foi o Chuck Palahniuk :$ seguido do Jorge Amado!

      Eliminar
    4. Acredito, gostas tanto do Jorge Amado :p

      Eliminar
  2. O Bobo é épico xD respect pelo Kent

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. o Bobo era talvez o mais mentalmente são de todos :o

      Eliminar

Enviar um comentário