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Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

Jane Austen

Faz hoje 200 anos que Jane Austen morreu.

Li aqui no Diário de Leituras que há, finalmente, uma estátua da autora, bem como uma nota que a comemora. Segundo o Governador do Bank of England:
Our banknotes serve as repositories of the country’s collective memory, promoting awareness of the United Kingdom’s glorious history and highlighting the contributions of its greatest citizens.
Austen’s novels have a universal appeal and speak as powerfully today as they did when they were first published.
Li os seis livros de Jane Austen (sim - são apenas seis, fora os trabalhos pequenos compilados) há vários anos (props a quem ainda se lembrar das capas azuis da Wordsworth) - cedo soube que era um nome obrigatório, como Dickens ou Shakespeare. Em vida, Jane Austen não vendeu muito - hoje a sua obra está traduzida em mais de 30 línguas, e é uma pena que Austen não tenha vivido para ver o seu sucesso. Há adaptações e mais adaptações e retellings dos seus livros (o meu preferido é o Clueless, com a A…

O Deus das pequenas coisas

Demorei demasiado tempo a pegar neste livro.


É 1969 e apesar da não tão recente independência da Índia, o sistema de castas prevalece. "Ammu" Kochamma, filha de um entomólogo respeitável (conhecido como "Pappachi") e de uma violinista ("Mammachi"), queria fugir ao casamento arranjado e às tradições, e casa-se numa visita a familiares em Bengali, um pouco contra a vontade da família. Acaba por se divorciar do marido, por este ser alcoólico e violento, mas não sem antes ter dois filhos gémeos: Esthappen, um rapaz, e Rahel, uma rapariga. Volta então para a sua casa de família em Ayemenem, condenada a viver como uma pária da sociedade devido ao seu divórcio.
Interessante será notar, desde já, que o chefe da família era Chacko, seu irmão, membro do Partido Comunista, e também divorciado, de uma mulher inglesa - divórcio não tão mal visto porque, lá está, era um homem. A restante família era Mammachi, já cega (Pappachi tinha morrido, após anos enquanto marido e…

na estante

Mencionando algumas novidades na estante.

Fui à FNAC do Vasco da Gama comprar o Le rouge et le noir, que vai ser leitura conjunta do Clube dos Clássicos Vivos. Não queria ler, porque não tinha o livro - aliás, eu há anos que queria muito ler o livro, não queria era participar - mas encontrei uma edição a menos de 2€ na FNAC, em francês, e decidi que não faria grande mossa na carteira. Junto veio também um livro da Amélie Nothomb, autora que já li antes, por 0,99€.
Outras promoções de interesse na FNAC: uma box set, em inglês, de livros do Nick Hornby, com o Fever Pitch, o About a Boy, o How to Be Good, o A Long Way Down, o High Fidelity e o Juliet, Naked (único que não li - o meu conjunto, comprado em 2012, tinha não este, mas o Slam). Estava a talvez 24€, e recomendo: não são os melhores livros do mundo, mas são giros, e 24€ por seis livros é um bom negócio. Também havia uma promoção de "-50% no segundo livro" com livros como O Som e a Fúria (que recomendei aqui), o Gabrie…

Elina Guimarães

Fui ontem a um sítio que me é muito querido.

O Centro de Documentação e Arquivo Feminista Elina Guimarães faz parte da UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta, uma organização da qual já fui voluntária (precisamente no arquivo), e à qual gosto sempre de regressar (ontem, no contexto de um Seminário do Projecto Memória e Feminismos).
Quem ler este blog há algum tempo sabe, decerto, o quão importantes as questões de mulheres são para mim. É aliás um assunto que já abordei algumas vezes, e que voltei a abordar no projecto "Março Feminino", da Sandra, em Março deste ano.
Ontem, após a intervenção de Adriana Bebiano, professora da Universidade de Coimbra, cujas orações gosto sempre de ouvir, voltei a casa com nomes poetisas portuguesas que tenho mesmo de ler - e com a ainda maior convicção que as Novas Cartas Portuguesas não podem passar deste ano. Também voltei a pensar que tenho de passar lá mais vezes, seja em eventos, seja em regime de voluntariado, e também ver melh…

As impertinências do cupido

Lido a convite da autora, Ana Gil Campos.


Esta foi a minha primeira experiência com um ebook em formato "WOOK Reader": o livro foi-me disponibilizado através da plataforma da WOOK (o que faz sentido, dado tanto a WOOK como a chancela CoolBooks fazerem parte do Grupo Porto Editora). Apesar de ser cliente há cerca de dez anos (alguém se lembra como a WOOK se chamava antes? Mudou de nome em talvez 2008...), nunca fui adepta do formato digital. Devo referir que li a obra num computador normal, e a leitura foi agradável - no entanto, segundo percebo, dá também para utilizar em tablet ou telemóvel.
Mas adiante.
Esta obra passa-se no Bairro Itaim Bibi em São Paulo, cidade na qual a autora morou. Como diz na introdução, neste bairro, vivem a Daniela e o Francisco, a Mónica, a Patrícia e o Filipe, e muitos outros que amam, não amam, desejam amar e serem amados, isto é, não são diferentes de qualquer outra pessoa que vive em qualquer outro bairro do mundo.
Ao longo de 13 capítulos, ex…

O que traz a noite

Escrevendo finalmente sobre o primeiro livro do Alexandre, que quero ler há já mais um ano, desde que foi publicado (podem ler mais sobre a minha motivação aqui).

O que traz a noite é uma obra que explora um mundo distópico no qual, uma manhã, o sol não nasce. É noite, simplesmente: fez-se noite e, de manhã, continua a ser noite. E dia após dia a situação mantém-se.
Como reagir quando algo que tomamos por garantido desaparece sem qualquer tipo de aviso ou antecipação?
E o que fazer quando esse algo é tão necessário quanto a luz do dia?

Ninguém sabia exactamente a que horas nascia o sol, se lhe era permitido atrasar-se ocasionalmente, como um trabalhador que também não é mecânico na chegada ao horário de trabalho.

É neste mundo que conhecemos as personagens, distintas, mas cujas vidas acabam por se cruzar: Gastão e a sua esposa com problemas de foro psiquiátrico, Maria; Joseph Fritz, um juiz de personalidade fria e metódica; Irene, chefe de uma casa de cuidados para cegos, e o seu empre…

Laços de Família

Peguei finalmente no meu segundo livro de Clarice Lispector (mais que isso, escrevi finalmente esta review).

Comprei este livro na Feira do Livro de 2016, naquela que se tornou a minha tradição: comprar um livro de Clarice Lispector todos os anos. Todos os anos tenho seleccionado um título para comprar, aproveitando as promoções da Relógio d'Água (este ano comprei A Hora da Estrela).
Laços de Família difere de A Paixão Segundo GH (o único outro livro que já tinha lido da autora) logo por se tratar de um livro de contos. Cada um destes treze contos gira em torno de um momento específico no quotidiano de cada personagem, um momento que traz consigo uma epifania, uma recordação, ou um exacerbar de um qualquer sentimento. Todos os personagens são fechados em si mesmos, não só no sentido da possível timidez, mas também no sentido em que são, de certa maneira, prisioneiros.
E cada uma das personagens centrais de cada história, maioritariamente mulheres, questiona a sua existência, a su…

O Livro de Cesário Verde

Já conhecia Cesário Verde do secundário, e decidi dar-lhe nova chance.

Não sei se já alguma vez o tinha manifestado, e possivelmente esta é uma declaração meio polémica, nomeadamente logo a seguir a polémicas relacionadas com o exame de português do 12º ano - mas não gostei de nenhuma das obras de leitura obrigatória no secundário. Li-as todas, é certo - mas não apreciei nenhuma. Excepto o Frei Luís de Sousa, de que ninguém gosta. Vi os dois filmes.
(o meu exame incidiu sobre Alberto Caeiro, já agora)
Regressei mais recentemente a Eça de Queirós (tendo lido os Contos, o Crime do Padre Amaro e A Relíquia), e até gostei. Estou então, lentamente, a tentar dar uma nova oportunidade aos outros autores, cerca de dez anos volvidos.
E é aqui que entra Cesário Verde. Lembro-me de ler Cesário no 11º ano, aquando do estudo do realismo, logo a seguir a ler Os Maias, e lembro-me apenas vagamente. Lembro-me que na altura estava investida na leitura de Great Expectations, do Dickens, que a minha pro…

O Alienista

Tenho andado a redescobrir Machado de Assis.


Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

Esta novella é sobre Simão Bacamarte, "o alienista", o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas, que se debruçara sobre o estudo da louc…

Mar me quer

"Mar me quer" é muito mais que um trocadilho.


Comprei este livro na Feira do Livro deste mesmo ano. Vi que seria um livro dirigido a um público um pouco mais infantil, com ilustrações, de Mia Couto, de quem só li Terra Sonâmbula - mas cuja escrita adorei.
Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.
Parece realmente um livro infantil, com ilustrações lindíssimas, mas acaba por ser a história de um homem e de uma mulher - de como um homem, Zeca Perpétuo, deseja uma mulher, Luarmina, sua vizinha, um pouco mais velha que ele, mulata, "gorda e engordurada", cuja foto de juventude deixava ver uma mulher elegante.
Luarmina, no entanto, quer o passado de Zeca, quer conhecer as suas memórias - mas Zeca quer viver no presente, alegando que o passado o maltratou.
Cada capítulo é introduzido com um dito do avô Celes…

Maratona Literária & Book Bingo

Como já escrevi antes, esta é a altura do ano em que costumo ler mais. Por isso, decidi participar em dois desafios de verão: a Maratona Literária de Verão 2017 e o Book Bingo - Leituras ao Sol.

Decidi participar não-oficialmente na Maratona Literária de Verão 2017, organizado pelos blogs Flames, da Mariana e da Roberta, e pelo Agora que sou crítica. Ou seja, vou simplesmente usar as categorias para escolher as minhas próximas leituras (não me consegui inscrever no formulário). Este desafio decorre de 18 de Junho (hoje!) a 22 de Setembro.
As categorias são:
1) Ler um livro noutra língua (inglês, francês, espanhol, italiano, etc.) Este para mim é simples, dado serem relativamente poucas as vezes que leio em português. Para dificultar um pouco, penso que lerei Thérèse Raquin, de Émile Zola.
2) Ler um livro de um autor português O que traz a noite, de Alexandre Costa, livro que, conforme expliquei no post anterior, quero ler o mais rapidamente possível.
3) Ler um livro que compraste há m…

Feira do Livro - o rescaldo

Aqui ficam as últimas compras da Feira do Livro (e, segundo planeio, as últimas compras do próximo ano).

14 de Junho: Fui esta noite com uma lista estrita e decidi que, na Bertrand/Porto Editora, compraria apenas edições que entrassem em Hora H.
Tendo chegado cedo, fiz um pequeno desvio e comecei por comprar O que traz a noite, de Alexandre Costa, na banca onde estava representada a Capital Books, livro que me arrependo de não ter comprado no ano passado, quando foi lançado. O senhor que estava na banca entregou-me o livro num saco, dizendo, "vai aqui num saco do Daniel Silva, mas se calhar não tem nada a ver". Vergonha minha, porque se nunca li Daniel Silva e isso não me apoquenta, o pior é que nunca li Alexandre Costa. E eu conheço o Alexandre. Nunca estive com ele muitas vezes, mas ele apareceu no Largo Camões para me dar os parabéns quando eu fiz anos, em 2012. E conheço o Ricardo, que fez a capa do livro, e não vejo o Ricky há possivelmente cinco anos também. Uma vez al…

Prozac Nation

Mental illness is so much more complicated than any pill that any mortal could invent.

Prozac Nation é a memória de Elizabeth Wurtzel, jornalista norte-americana. Ao contrário do que o título possa indicar, não é um livro sobre Prozac, mas sim sobre a vida da autora - um pouco como Girl, Interrupted.
Tenho alguma dificuldade em escrever sobre este livro, porque não sei ao certo o que acho dele. Não sei se respeite ou odeie a autora - ela tem um ego gigante, vive na sua própria cabeça, admoesta-se ao longo de toda a obra. Elizabeth Wurtzel descreve-se constantemente como full of promise, queixa-se de os pais a enviarem para o summer camp nas férias para ser normal como os outros, diz que o seu desespero é superior ao de todas as outras pessoas. Aos 25 anos, quando escreveu o livro, Elizabeth parecia achar que era incrivelmente especial, tinha todos os problemas do mundo, e tinha respostas para tudo.
Mas, ao mesmo tempo - quem nunca?

Porque a verdade é que Elizabeth Wurtzel é honesta. Cl…

Nunca direi quem sou

Retomando o ritmo das reviews atrasadas com um conjunto de escritos de um autor português.

Nunca direi quem sou é um conjunto de pequenos textos ficcionados sobre pessoas reais, como Jorge Luís Borges, Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira ou Clarice Lispector, dando um lado profundamente pessoal a autores dos quais por vezes pouco mais sabemos para além da sua obra: citando a página da editora, Quem poderá saber quem foram, se nem os próprios o disseram?
Vergílio Alberto Vieira propõe-se, assim, a fugir de si mesmo, a entrar na pele e falar ficcionalmente por estes autores, dando-se a conhecer enquanto dá também a conhecer estas pessoas, quem são para além da sua obra.
Fiquei com uma enorme vontade de pegar n'A Aparição, que nunca li, ou no Ficciones; de investigar mais personagens como Sapho ou Epitecto, de finalmente comprar um livro do Mário Cesariny ou do Herberto Helder (Feira do Livro, estou a olhar para ti).
Às quartas, a preia-mar devolve à ilha os que a peregrinação levara f…