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A mostrar mensagens de 2015

Sherlock Sherlock

Factores que atrasam reviews: Natal e respectivos preparativos, notícias sobre novos empregos e respectivas burocracias, ginásio e cansaço resultante.

Os livros em atraso são todos eles da mesma série, portanto por que não escrever as reviews todas juntas?
The Sign of Four
Logo no início deste livro aprendemos o que Sherlock faz para passar o tempo quando não tem problemas alheios para ocupar a cabeça:
Sherlock Holmes took his bottle from the corner of the mantelpiece and his hypodermic syringe from its neat morocco case. With his long, white, nervous fingers he adjusted the delicate needle, and rolled back his left shirt-cuff. For some little time his eyes rested thoughtfully upon the sinewy forearm and wrist all dotted and scarred with innumerable puncture-marks. Finally, he thrust the sharp point home, pressed down the tiny piston, and sank back into the velvet-lined arm-chair with a long sigh of satisfaction.
Cocaína e morfina.
Mas rapidamente surge um entretém: uma jovem de nome M…

A Study in Scarlet

Spoiler: neste livro não é dito “elementar, meu caro Watson”.

Há cerca de um ano comprei um set com os cinco primeiros livros do Sherlock Holmes, e vou-me agora dedicar à sua leitura. As capas são todas horrorosas saídas da série da BBC que nunca vi, mas a diferença de preços entre as edições era abismal, portanto decidi-me por estas mesmo.
Tenho tantos livros que não quero saber se alguns não são bonitos.
É uma leitura tremendamente interessante, fácil e empolgante. Ao contrário de um jogo de Cluedo, não temos todas as personagens reunidas numa sala enquanto Sherlock Holmes deduz quem foi o criminoso; neste caso, o mais famoso residente de Baker Street (a seguir, quiçá, ao Madame Tussauds) ajuda a Scotland Yard num crime que parece, tanto aos inspectores como ao Dr Watson e, diria, ao leitor, bastante complexo e com muitas pontas soltas – cinza de cigarro, pegadas de cavalo, mau hálito num cadáver – mas que para Sherlock Holmes faz imenso sentido e é de resolução rápida (três dias).
“…

Two for One

Todas as minhas reviews estão horrendamente atrasadas porque é Dezembro e só quero estar na cama e embrulhar prendas de natal e ver os filmes do Harry Potter com o meu amor e fazer aulas de bunda.

Portanto, aqui vão dois em um (e só não são três porque, como verão no post seguinte, quando quer que apareça, esse livro precisa do seu próprio espaço, ou pelo menos de o partilhar com outras leituras).
Freakonomics Há muito, muito tempo que tinha curiosidade acerca deste livro. Comprei-o no Aeroporto de Gatwick e foi um negócio simpático, embora tenha dormido na viagem ao contrário da maioria das pessoas que compram livros em aeroportos.
Economia é uma ciência maravilhosa, e a que mais me fascina dentro das ciências sociais porque se baseia tanto em números – e, ao mesmo tempo, é possível fazer um curso inteiro sem pegar em matemática (se bem que no meu mestrado demos derivadas). Tudo é política, tudo é instituições, tudo é economia; e se economia tem como base incentivos, este livro pega …

Men Without Women

Desilusão, em geral.

Adoro o Hemingway, mas a maioria destas histórias foi aborrecida. Destaco, pela positiva, Hills Like White Elephants e Ten Indians, mas a restante parte das histórias é medíocre.
“My heart’s broken,” he thought. “If I feel this way my heart must be broken.” After a while he heard his father blow out the lamp and go into his own room. He heard a wind come up in the trees outside and felt it come in cool through the screen. He lay for a long time with his face in the pillow, and after a while he forgot to think about Prudence and finally he went to sleep. When he awoke in the night he heard the wind in the hemlock trees outside the cottage and the waves of the lake coming in on the shore, and he went back to sleep. In the morning there was a big wind blowing and the waves were running high up on the beach and he was awake a long time before he remembered that his heart was broken.
2/5

Podem comprar esta edição aqui.

12 Years a Slave

Às vezes passamos semanas inteiras a ajudar outras pessoas a fazer o seu trabalho, a fazer o trabalho de outras pessoas, a estudar para arranjar um trabalho melhor, a explicar a pessoas sobre o que é que o seu trabalho é. E as reviews ficam por fazer.

Sem ter ainda visto o filme (está gravado na box), e sabendo que era uma história real, confesso que não sabia ao certo o que esperar. Solomon Northup era um homem negro livre, cidadão do estado de New York, nuns Estados Unidos em que o Sul ainda era esclavagista e o Norte já não. Foi enganado a pensar que lhe iam dar um trabalho como violinista, foi raptado (assim, quem o vendia posteriormente tinha lucro total, pois não o tinha de ter comprado a ninguém), e ficou doze anos maioritariamente sob a posse de "donos" muitas vezes terríveis, sem ver a sua família e sem a poder contactar.
Eu não sabia que houvera essa dualidade, em que negros podiam ser cidadãos livres em certos pontos do país, e que havia esses raptos (que, no fun…

Parábola do Cágado Velho

Mais um livro incrível emprestado pelo mais incrível de todos.

O livro começa de forma imensamente poética, uma vida que se vira ao contrário devido a uma granada e a visão que esta traz. Ulume vai visitar frequentemente um cágado velho, possivelmente mais velho que ele, acreditando na sua sabedoria, sentindo o tempo parar sempre que o cágado vai beber água, todos os dias pela mesma hora. Ulume desabafa e questiona o cágado sobre os problemas da vida, e sente que este o ouve, aguardando pelo dia em que lhe responda.
Houve um tempo anterior a tudo, há sempre, não é mesmo?
Ulume é casado com Muari, de quem tem dois filhos, Luzolo e Kanda, que partem cada um para uma facção diferente da guerra civil Angolana: nunca nos é dito quem vai para a UNITA e quem vai para a MPLA, neste livro não há distinção sobre quem são "os nossos" e quem são "os inimigos" - são todos iguais e, na pequena aldeia, afastada de Calpe, dos centros urbanos, ninguém percebe ao certo o porquê da l…

Cannery Row

Estou tão atrasada nas reviews que já ultrapassei a fase em que me posso comparar a um coelho branco.

Adoro o Steinbeck desde que li o Of Mice and Men, e ainda só li algumas das suas obras mais pequenas. Steinbeck sabia escrever personagens simples mas com problemas fortes, personagens sempre nos mais altos níveis de pobreza mas que aceitam essa condição. Apesar da esperança, está-se sempre envolto numa nuvem de tristeza e fatalismo, mas ao mesmo tempo de sabedoria.
The things we admire in men, kindness and generosity, openness, honesty, understanding and feeling are the concomitants of failure in our system. And those traits we detest, sharpness, greed, acquisitiveness, meanness, egotism and self-interest are the traits of success. And while men admire the quality of the first they love the produce of the second.
Mais que seguir uma personagem em particular, Cannery Row é um conjunto de histórias curtas, capítulos curtos sobre algumas das personagens da rua em si, um género de small …

Mistérios

O meu segundo Hamsun, emprestado pelo meu primeiro amor.

Mistérios não tem muita história: Nagel, um forasteiro bizarro de fato amarelo, decide desembarcar numa pequena cidade na Noruega, lançando o caos, ou tentando semeá-lo.

O comportamento de Nagel é provocatório, auto-depreciativo, de um mentiroso compulsivo, depressivo e quiçá sociopático; e ele ocupa muito do seu tempo ora a beber, ora a relatar histórias estranhas, desconcertantes e frequentemente contraditórias que o denigrem aos olhos de quem as escuta. Nesse mesmo sentido, fala interminavelmente a quem conseguir que o ouça, lança ideias loucas para o ar, tudo parece calculado de modo a dar um mau aspecto de si mesmo.

 - O nosso cão morreu. Simplesmente não parece possível!
 - Morreu? - foi tudo o que Nagel disse.
 - Foi há poucos dias. Encontrámo-lo rijo e frio como uma pedra. Não posso imaginar como isso possa ter acontecido.
 - Tive sempre a sensação de que o cão era um animal maldoso. Lamento, mas ele era um daqueles mastins …

A Feira dos Assombrados e Outras Estórias Verdadeiras e Inverosímeis

Contos, contos!

A Feira dos Assombrados é o primeiro e maior conto deste pequeno livro. Passa-se na cidade do Dondo, em finais do século XIX, e narra a chegada dos "afogados", mortos que surgiam via Rio Quanza na pequena cidade e que, com a sua aparência cada vez menos humana, abalaram a população, trazendo ao de cimo todos os conflitos latentes, entre as figuras de poder (o professor, o administrador do concelho, o padre) e entre personagens invulgares e acontecimentos dignos de um Entroncamento.
"Fizeram-no chefe do concelho e sua excelência julga que o fizeram Rei. Chefe do concelho?! E afinal o que é que ele governa? Uma feira de assombrados é o que ele governa!"
4/5

Podem comprar esta edição aqui.

Terra Sonâmbula

O que já está queimado não volta a arder.


Este é um dos muitos, muitos livros que, à medida que lia, me levava a interrogar-me o porquê de não o ter lido antes. Numa palavra: mágico.
A premissa é simples: um rapaz novo e um velho encontram-se sozinhos, fugindo da guerra em Moçambique, e abrigam-se num autocarro incendiado, um próprio retrato da guerra, cheio de corpos queimados, dos pertences dos mesmos passageiros. O rapaz, Muidinga, não tem memória, e é Tuahir, o velho, que cuida dele. Muidinga quer encontrar os pais, Tuahir tenta dissuadi-lo.
O que Muidinga encontra, no autocarro, são os diários/memórias de um passageiro, Kindzu, que se tornam no entretém e consolo da dupla. A partir daqui, a narrativa alterna entre o dia-a-dia de Tuahir e Muidinga e os diários de Kindzu, um entrelaçar de sequências de sonhos, com terror, com realismo mágico, cheios de crenças e tradições populares. É uma guerra descrita sem cenários de guerra, mas pelas suas pessoas, perdidas, sem terra. 
A própri…

Les Liaisons Dangereuses

Este foi-me oferecido pela Sara, que espero que continue a ser uma das duas pessoas que ainda lêem este blog.


Li em inglês em Junho de 2010 e na altura gostei muito. O mais interessante em reler livros em francês tem sido ver se continuo a ter a mesma opinião sobre os mesmos, anos mais tarde. Na tradução do Candide perdia-se um bocado; o La Porte Étroite reafirmou a sua posição como um dos meus favoritos; Les Malheurs de Sophie é um livro que descobri que, uns 15 anos após a última vez que o tinha lido, eu ainda sabia de cor. O Jules et Jim é um hino ao amor e à vida.
Os livros não mudam – mas mais que a língua, muda o leitor que se depara com uma obra que irá reler.

Les Liaisons Dangereuses é uma obra sobre vinganças centradas em esquemas que se centram maioritariamente em procurar desonrar e desvirtuar mulheres, um livro censurado na altura em que saiu devido ao seu teor sexual e escandaloso, supostamente adorado por Marie Antoinette (quiçá para a tentar desvirtuar mais aos olhos do…

Primeiro as Senhoras

Da autoria de Mário Zambujal (autor da Crónica dos Bons Malandros, o qual nunca li).

Primeiro as Senhoras tem como premissa o relato de um homem a um inspector acerca do seu rapto, de modo a compreender e desvendar o crime. Quem teria encarcerado Edgar durante nove dias?
Premissa interessante, portanto, mas desenvolvimento que deixa, na minha opinião, muito a desejar. Entre neologismos inventados a partir de outros estrangeirismos (flechebeque, dupléquece, ou pior, pâzele, eu horrorizada a desvendar cada palavra inventada), o narrador não passa de um misógino que inventa porcaria acerca do rapto e consegue encaixar histórias das suas várias mulheres pelo meio, num monólogo.

A parte que mais me despertou a atenção foi uma menção a um telemóvel, que me levou a descobrir que, apesar dos nomes (Gilberta? Renata Emília?), das referências datadas, e do sexismo latente, isto foi escrito em 2006 e não nos anos 80.
Entretém, mas não é suficiente, tendo rolado os olhos no final.
1.5/5

Podem comp…

A Cup of Sake Beneath the Cherry Trees

Leitura de quem estava com dor de cabeça tal que ler em francês não parecia uma opção viável.

It is a most wonderful comfort to sit alone beneath a lamp, book spread before you, and commune with someone from the past who you have never met.
Que é o que estamos a fazer com este livro (e com tantos outros). Kenkō era um monge japonês do século XIV, que apreciava a sua vida e o seu conhecimento, e as suas observações sobre como se deve viver a vida são, ainda hoje, surpreendentemente, bastante actuais (sendo algumas um bocado datadas, como seria de esperar). Lembrou-me um pouco O Profeta, de Kahlil Gibran, no género de livro de que se trata, mas talvez mais fácil de uma pessoa se relacionar.

If your life did not fade or vanish like the dews of Adashino's graves or the drifting smoke from Toribe's burning grounds, but lingered on for ever, how little the world would move us. It is the ephemeral nature of things that makes them wonderful.

A Cup of Sake Beneath the Cherry Trees é um c…

London Calling

Fui a Londres, vi o Big Ben e tudo isso, e comprei dois livros (e duas canecas). Paris estará sempre no meu coração, mas Londres é a cidade. A voltar, a voltar, a voltar.

I Capture the Castle

Review vergonhosamente atrasada.

Cassandra Mortmain, a narradora, quer aprender a escrever ao escrever um diário, no qual procura "capturar" a sua vida familiar. Cassandra vive com a irmã, o pai, a madrasta e o filho da antiga empregada num castelo em ruínas, em pobreza extrema, na Inglaterra rural, e as suas vidas são pacatas até chegarem os herdeiros americanos do castelo.
I don’t really want to write anymore, I just want to lie here and think. But there is something I want to capture. It has to do with the feeling I had when I watched the Cottons coming down the lane, the queer separate feeling. I like seeing people when they can’t see me. I have often looked at our family through lighted windows and they seem quite different, a bit the way rooms seen in looking glasses do. I can’t get the feelings into words-it slipped away when I tried to capture it.
Resumir este livro ia fazê-lo parecer aborrecido e previsível, quando é divertido e excêntrico, uma história de cresciment…

Há Monstros Debaixo da Cama?

Emprestado pelo meu tigre, que é muito mais incrível que o Hobbes.

Surpreendentemente inspirador, tem partes bonitas, partes com piada, partes que deixam uma pessoa a pensar.

Obrigado por partilhares comigo os teus livros, os teus interesses, os teus cereais, por seres o melhor amigo, o melhor companheiro, pela forma como danças, por me protegeres dos monstros, por todo o teu amor.


5/5

Podem comprar em português aqui, ou em inglês aqui.

Tieta do Agreste

De amor não se morre, de amor se vive.

Se uma mulher é dada à promiscuidade, é uma vadia que é espancada e escorraçada da cidade. Se a mesma mulher, anos mais tarde, enriquece, começa a mandar cheques à família necessitada, a oferecer prendas e a ajudar as pessoas da terra que a expulsou, enviúva de um comendador e regressa a Agreste, é uma santa, filha pródiga, quase canonizada.
Pelo menos até se descobrir que o dinheiro provém de lenocínio.
5/5

Podem comprar uma outra edição aqui.