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Mensagens

O Alienista

Tenho andado a redescobrir Machado de Assis.


Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

Esta novella é sobre Simão Bacamarte, "o alienista", o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas, que se debruçara sobre o estudo da louc…
Mensagens recentes

Mar me quer

"Mar me quer" é muito mais que um trocadilho.


Comprei este livro na Feira do Livro deste mesmo ano. Vi que seria um livro dirigido a um público um pouco mais infantil, com ilustrações, de Mia Couto, de quem só li Terra Sonâmbula - mas cuja escrita adorei.
Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.
Parece realmente um livro infantil, com ilustrações lindíssimas, mas acaba por ser a história de um homem e de uma mulher - de como um homem, Zeca Perpétuo, deseja uma mulher, Luarmina, sua vizinha, um pouco mais velha que ele, mulata, "gorda e engordurada", cuja foto de juventude deixava ver uma mulher elegante.
Luarmina, no entanto, quer o passado de Zeca, quer conhecer as suas memórias - mas Zeca quer viver no presente, alegando que o passado o maltratou.
Cada capítulo é introduzido com um dito do avô Celes…

Maratona Literária & Book Bingo

Como já escrevi antes, esta é a altura do ano em que costumo ler mais. Por isso, decidi participar em dois desafios de verão: a Maratona Literária de Verão 2017 e o Book Bingo - Leituras ao Sol.

Decidi participar não-oficialmente na Maratona Literária de Verão 2017, organizado pelos blogs Flames, da Mariana e da Roberta, e pelo Agora que sou crítica. Ou seja, vou simplesmente usar as categorias para escolher as minhas próximas leituras (não me consegui inscrever no formulário). Este desafio decorre de 18 de Junho (hoje!) a 22 de Setembro.
As categorias são:
1) Ler um livro noutra língua (inglês, francês, espanhol, italiano, etc.) Este para mim é simples, dado serem relativamente poucas as vezes que leio em português. Para dificultar um pouco, penso que lerei Thérèse Raquin, de Émile Zola.
2) Ler um livro de um autor português O que traz a noite, de Alexandre Costa, livro que, conforme expliquei no post anterior, quero ler o mais rapidamente possível.
3) Ler um livro que compraste há m…

Feira do Livro - o rescaldo

Aqui ficam as últimas compras da Feira do Livro (e, segundo planeio, as últimas compras do próximo ano).

14 de Junho: Fui esta noite com uma lista estrita e decidi que, na Bertrand/Porto Editora, compraria apenas edições que entrassem em Hora H.
Tendo chegado cedo, fiz um pequeno desvio e comecei por comprar O que traz a noite, de Alexandre Costa, na banca onde estava representada a Capital Books, livro que me arrependo de não ter comprado no ano passado, quando foi lançado. O senhor que estava na banca entregou-me o livro num saco, dizendo, "vai aqui num saco do Daniel Silva, mas se calhar não tem nada a ver". Vergonha minha, porque se nunca li Daniel Silva e isso não me apoquenta, o pior é que nunca li Alexandre Costa. E eu conheço o Alexandre. Nunca estive com ele muitas vezes, mas ele apareceu no Largo Camões para me dar os parabéns quando eu fiz anos, em 2012. E conheço o Ricardo, que fez a capa do livro, e não vejo o Ricky há possivelmente cinco anos também. Uma vez al…

Prozac Nation

Mental illness is so much more complicated than any pill that any mortal could invent.

Prozac Nation é a memória de Elizabeth Wurtzel, jornalista norte-americana. Ao contrário do que o título possa indicar, não é um livro sobre Prozac, mas sim sobre a vida da autora - um pouco como Girl, Interrupted.
Tenho alguma dificuldade em escrever sobre este livro, porque não sei ao certo o que acho dele. Não sei se respeite ou odeie a autora - ela tem um ego gigante, vive na sua própria cabeça, admoesta-se ao longo de toda a obra. Elizabeth Wurtzel descreve-se constantemente como full of promise, queixa-se de os pais a enviarem para o summer camp nas férias para ser normal como os outros, diz que o seu desespero é superior ao de todas as outras pessoas. Aos 25 anos, quando escreveu o livro, Elizabeth parecia achar que era incrivelmente especial, tinha todos os problemas do mundo, e tinha respostas para tudo.
Mas, ao mesmo tempo - quem nunca?

Porque a verdade é que Elizabeth Wurtzel é honesta. Cl…

Nunca direi quem sou

Retomando o ritmo das reviews atrasadas com um conjunto de escritos de um autor português.

Nunca direi quem sou é um conjunto de pequenos textos ficcionados sobre pessoas reais, como Jorge Luís Borges, Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira ou Clarice Lispector, dando um lado profundamente pessoal a autores dos quais por vezes pouco mais sabemos para além da sua obra: citando a página da editora, Quem poderá saber quem foram, se nem os próprios o disseram?
Vergílio Alberto Vieira propõe-se, assim, a fugir de si mesmo, a entrar na pele e falar ficcionalmente por estes autores, dando-se a conhecer enquanto dá também a conhecer estas pessoas, quem são para além da sua obra.
Fiquei com uma enorme vontade de pegar n'A Aparição, que nunca li, ou no Ficciones; de investigar mais personagens como Sapho ou Epitecto, de finalmente comprar um livro do Mário Cesariny ou do Herberto Helder (Feira do Livro, estou a olhar para ti).
Às quartas, a preia-mar devolve à ilha os que a peregrinação levara f…