28 abril, 2017

Última Paragem, Massamá

Confesso: comprei este livro com zero expectativas.


Já escrevi um pouco sobre isso aqui. Há três anos atrás saía na estação de Massamá-Barcarena todos os dias (vivo e sempre vivi em Lisboa) e, na altura, não sei bem como, descobri que este livro existia. Ficou-me na cabeça durante vários anos, mas nunca o encontrei; verdade seja dita, nunca o procurei particularmente.

Por causa disso, houve sempre um certo factor emocional agarrado à ideia deste livro. Houve sempre a ideia de o comprar, de o querer ler. O que há, efectivamente, a dizer sobre Massamá? No entanto, e nunca tendo ouvido falar no autor, nem lido sequer a sinopse, quando lhe peguei para o ler, tinha zero expectativas.

Fui ver a biopic do Anselmo Ralph pela piada, há uns anos. No fundo, a aquisição deste livro e subsequente leitura foram uma ideia análoga.

Ora, este livro está repleto de referências à Linha de Sintra, esse colosso do subúrbio do qual milhares dependem diariamente - e começa logo com a perturbação da linha com a decisão de Vanessa de terminar a sua vida na estação de Massamá, qual Anna Karenina suburbana. Sabemos logo o desfecho, e somos invadidos pela problemática das várias pessoas que temem chegar tarde ao trabalho; eu, enquanto pessoa maioritariamente dependente de uma outra linha de comboio suburbana lisboeta, conheço pessoalmente o drama. Mas o que leva Vanessa a esta decisão abrupta?


E ao longo das páginas deste livro lemos sobre o inesperado e impossível triângulo amoroso Vanessa - Lucas - João, a história de um romance trágico e relegado ao suburbano, a passar-se ali entre as estações de Massamá e Amadora. As personagens desenvolvem-se, são pessoas comuns, um pouco à margem da sociedade, suburbanas até nisso; e a história avança entre temas fracturantes, empregos precários, homossexualidade, HIV, a batalha de Teutoburgo, até chegarmos ao ponto final, à última paragem da vida de Vanessa.

(...) não há muito tempo, sequer muita disponibilidade para reparar num quase-beijo dado por dois homens, um iniciar de quase-romance, excepção feita ao cacho de pretos que passa a tarde encostado aos apoios de acesso à passagem subterrânea, são miúdos, mandam bocas, tudo normal,

«larga o osso, paneleiro»

João finge não reparar, Lucas nem se apercebe, sente-se confuso, planta-se-lhe um zumbido no ouvido que não há-de passar tão cedo, em meia-dúzia de passos estão à porta do tal café, há-os às centenas por essa Cidade, por esses subúrbios fora, com toldos e esplanadas patrocinados por refrigerantes, copos de cerveja oferecidos por fornecedores, superfícies espelhadas e o constante manípulo a soltar as borras da água benta nacional.

Surpreendentemente, gostei muito.

4/5

Podem comprar esta edição aqui.