16 fevereiro, 2017

Of Human Bondage

“I want to have experiences. I’m so tired of preparing for life: I want to live it now.”


Finalmente, o livro preferido de uma das minhas amigas do trabalho, aclamado por muitos outros colegas.

Em The Human Bondage, um colosso de livro em vários sentidos, seguimos Philip Carey desde a sua infância, quando, órfão já de pai, é colocado na cama com a sua mãe moribunda, que o abraça e acaricia o seu pé deformado. Pouco depois, com a morte da mãe, Philip vai viver com os tios, muito mais velhos e sem filhos: o tio William, pároco, frio, austero e que não sabe lidar com crianças, e a tia Louisa, devota ao seu marido e à função deste na sociedade, que sempre tinha querido ser mãe mas não sabia como tratar Philip. Na verdade, a existência dos tios de Philip é retratada de forma incrivelmente triste, e é ao observá-los que Philip compreende que quer algo mais para si, não quer desperdiçar assim a sua vida, mas ter aventuras em vez de esperar simplesmente pela morte.

Na sua infância solitária, Philip agarra-se aos livros, a olhar para as ilustrações e a imaginar-se em viagens pelos vários sítios. Philip tem um feitio muitíssimo difícil, é tímido, tem vergonha do seu pé, é condescendente por se achar intelectualmente superior aos outros, mas ao mesmo tempo é inteligente, introspectivo, apaixonado pela vida, pelo mundo e pela arte; é uma personagem complexa e sensível - é humano.

A ideia do livro é bastante simples: um rapaz novo que fica órfão, é criado por tios que não sabem demonstrar afecto, vai para a escola e passa por todos os pesadelos que alguém minimamente diferente passa na escola. É um clássico livro que acompanha o crescimento da personagem.

He had lived always in the future, and the present always, always had slipped through his fingers.

Mesmo não sendo narrados na primeira pessoa, os pensamentos de Philip imprimem-se no leitor. O que Philip quer é viver, construir o seu caminho, a sua vida, perceber o seu significado e o que faz no mundo. Um dos momentos que mais se destaca no início do livro é a relação de Philip com a fé cristã: criado por um tio pároco e uma tia que espera que ele siga o mesmo caminho, Philip reza para que o seu pé seja curado. Como será de esperar, isto nunca acontece. Philip fica devastado e tudo em que ele acreditava até então é arrasado.

E mais do que crenças religiosas deitadas abaixo, acompanhamos também Philip a ser deitado abaixo, nomeadamente no que respeita a planos de vida, situação financeira e relações com mulheres.

Like all weak men he laid an exaggerated stress on not changing one's mind.

Philip, aluno promissor que podia ter tido uma bolsa para estudar em Oxford, apaixonado pelas artes e literatura nos quais se refugia, quer a sua liberdade e decide desistir da escola para viver a vida e ir para a Alemanha um ano, após o qual vai trabalhar para Londres e, posteriormente, estudar arte em Paris. Em cada mudança, Philip convence o tio relutante que são esses os desígnios da sua vida, que é na nova cidade ou matéria que irá encontrar a felicidade, e é frustrante mas ao mesmo tempo é ridiculamente humano: Philip procura sempre aquilo que lhe trará felicidade.

É em Paris que conhece Fanny Price, aspirante a artista desprovida de talento, que se apaixona por Philip, mas por quem este sente apenas repulsa e impaciência; e ao sentir a dedicação dela por algo que nunca terá, acaba por decidir evitar a mediocridade e seguir as pisadas do seu pai e ir para Londres estudar medicina.

People ask you for criticism, but they only want praise.

Mas é também em Paris que conhece um poeta, Cronshaw, que lhe oferece um tapete persa, no qual diz estar escondido o segredo da vida.

E é em Londres, na segunda metade deste livro, que aparece Mildred, uma empregada de uma casa de chá, demasiado magra, anémica e rude; e em resposta à rejeição e má atitude que ela demonstra, Philip apaixona-se por ela, de forma completamente auto-destrutiva. Mildred usa Philip para ter roupas novas, ir ao teatro, jantar fora, mas não deixa de sair com outros homens. Philip é um objecto nas mãos dela, uma caixa multibanco, Philip ensandece completamente.

He had though of love as a rapture which seized one so that all the world seemed spring-like, he had looked forward to an ecstatic happiness; but this was not happiness; it was a hunger of the soul, it was a painful yearning, it was a bitter anguish, he had never known before.

Mildred vai e volta e vai e volta e de cada vez destrói um pouco mais a vida de Philip. É uma personagem terrível, caótica, sobre-sexualizada e demasiado patética para odiar realmente; é mais frustrante ver como Philip a aceita sempre, parece sempre acreditar que as coisas vão funcionar, e chega a negar a felicidade com outra mulher por causa de Mildred.

He did not care if she was heartless, vicious and vulgar, stupid and grasping, he loved her. He would rather have misery with one than happiness with the other.

E, novamente, isso é humano. Quem nunca fechou os olhos à maneira horrível como era tratado por alguém que amava?

Mas há mais no livro do que a história de Philip e Mildred.

E o centro do livro encontra-se no tapete persa, porque no fundo este é um livro sobre um tipo a tentar perceber quem realmente é, qual o seu papel no mundo, o que deve ser a sua vida - e, com a ajuda do tapete, compreende que a vida não tem significado, mas dor e amargura e felicidade e alegria e tudo isto faz parte da vida da mesma maneira. Há que viver no presente e ter prazer nas pequenas coisas. E, assim, estudar arte dois anos em Paris para depois desistir não é um fracasso, mas parte do padrão que forma a vida, e estamos responsáveis por formar esse padrão.

Whatever happened to him now would be more motive to add to the complexity of the pattern, and when the end approached he would rejoice in its completion. It would be a work of art, and it would be none the less beautiful because he alone knew of its existence, and with his death it would at once cease to be.
Philip was happy.

5/5

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